TIQUES E SÍNDROME DE TOURETTE:
Como Identificar os Sinais e Quando Procurar um Neuropediatra
Ver seu filho piscar os olhos repetidamente, fungar sem estar resfriado ou fazer movimentos estranhos com os ombros pode gerar preocupação. Muitos pais pensam que é um problema ocular, alergia ou até mesmo um “nervosismo” sem causa. A verdade é que esses comportamentos podem ser tiques, um fenômeno neurológico bastante comum na infância.
Tiques são movimentos ou sons involuntários, repetitivos e súbitos. Eles fazem parte do desenvolvimento normal de muitas crianças e, na grande maioria dos casos, são transitórios e desaparecem sozinhos em semanas ou meses. No entanto, quando persistem por mais de um ano ou são complexos e intensos, podem indicar a Síndrome de Tourette.
Como neuropediatra em Maringá, recebo inúmeras famílias que buscam entender se os movimentos do filho são normais ou se precisam de tratamento. O objetivo deste artigo é esclarecer o que são tiques, quando se preocupar e qual o papel do especialista no acompanhamento.
O que são tiques?
Tiques são contrações musculares ou produções vocais involuntárias, rápidas, repetitivas e não rítmicas. Eles podem ser precedidos por uma sensação de desconforto interno, como uma coceira ou pressão, que a criança alivia ao executar o tique. Essa sensação é chamada de “urge” pré-monitório.
É importante entender que os tiques não são voluntários. A criança não faz “de propósito” ou “para chamar atenção”. Embora ela consiga suprimir o tique por um curto período (como na sala de aula), essa supressão causa grande desconforto e ansiedade, e o tique acaba sendo liberado em casa ou em momentos de relaxamento.
Por que os tiques são comuns na infância?
Estima-se que até 20% das crianças em idade escolar apresentem algum tipo de tique transitório em algum momento do desenvolvimento. Os tiques são mais frequentes entre 4 e 12 anos de idade, com pico de incidência por volta dos 6 a 7 anos. Meninos são afetados de 3 a 4 vezes mais que meninas.
A causa exata não é totalmente conhecida, mas sabe-se que há forte componente genético e envolvimento de circuitos cerebrais específicos, principalmente os gânglios da base, área do cérebro responsável pelo controle dos movimentos. Fatores como estresse, ansiedade, cansaço e excitação podem piorar os tiques, enquanto atividades que exigem foco e concentração tendem a melhorá-los temporariamente.
Quais são os tipos de tiques?
Tiques motores
Os tiques motores envolvem movimentos do corpo e podem ser classificados em simples ou complexos.
Tiques motores simples (os mais comuns):
Piscar os olhos excessivamente
Encolher os ombros
Contrair o abdômen
Fazer caretas ou torcer o nariz
Balançar a cabeça
Estalar o pescoço
Levantar as sobrancelhas
Abrir a boca repetidamente
Tiques motores complexos:
Pular
Tocar objetos ou pessoas
Cheirar as próprias mãos
Repetir gestos observados (ecopraxia)
Bater palmas sem motivo aparente
Girar o corpo
Fazer movimentos obscenos (copropraxia)
Tiques vocais (ou fônicos)
Os tiques vocais envolvem a produção de sons pela boca, nariz ou garganta.
Tiques vocais simples:
Pigarrear
Fungar (como se estivesse cheirando)
Tossir seco
Emitir sons como “ah”, “eh”, “hum”
Assobiar
Estalar a língua
Grunhir
Tiques vocais complexos:
Repetir palavras ou frases ouvidas (ecolalia)
Falar palavras ou frases sem contexto
Mudar repentinamente o tom ou volume da voz
Pronunciar palavras obscenas ou socialmente inapropriadas (coprolalia)
Repetir as próprias palavras (palilalia)
Síndrome de Tourette
A Síndrome de Tourette é o quadro mais grave dentro dos transtornos de tiques. Para o diagnóstico, são necessários três critérios principais:
Presença de múltiplos tiques motores (dois ou mais)
Presença de pelo menos um tique vocal
Persistência dos tiques por mais de 12 meses consecutivos
O início dos sintomas ocorre geralmente entre 4 e 6 anos de idade. O pico de gravidade costuma acontecer entre 10 e 12 anos, quando os tiques estão no auge. Após a adolescência, a maioria das crianças apresenta melhora significativa. Estima-se que cerca de um terço dos adolescentes fique completamente livre dos tiques na vida adulta.
Comorbidades associadas
A Síndrome de Tourette raramente vem sozinha. As condições mais frequentemente associadas incluem:
TDAH: presente em cerca de 50% a 60% dos casos. Pode preceder o aparecimento dos tiques
Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): presente em 30% a 50% dos casos
Transtorno de Ansiedade: muito comum devido ao impacto social dos tiques
Transtorno do Espectro Autista: em menor percentual, mas com maior frequência que na população geral
Transtorno do Controle dos Impulsos
Depressão: secundária ao impacto psicossocial
Identificar e tratar essas comorbidades é tão importante quanto tratar os tiques. Muitas vezes, o impacto do TDAH ou do TOC na vida da criança é maior do que o impacto dos próprios tiques.
Causas e fatores desencadeantes
A Síndrome de Tourette tem forte base genética. Estudos com gêmeos mostram que a concordância é muito maior em gêmeos idênticos do que em não idênticos. O padrão de herança é complexo, envolvendo múltiplos genes.
Fatores que podem piorar os tiques:
Estresse e ansiedade (provas, conflitos familiares, mudanças)
Cansaço e privação de sono
Excitação intensa (festa, jogos, vídeo games)
Cafeína e estimulantes
Infecções (principalmente estreptocócicas, em casos específicos)
Fatores que melhoram os tiques:
Foco em atividades que exigem concentração (estudar, tocar instrumento, esportes)
Sono adequado
Relaxamento e atividades prazerosas
Diagnóstico
O diagnóstico da Síndrome de Tourette e dos transtornos de tiques é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, de imagem ou genético que confirme o diagnóstico.
A avaliação inclui:
História clínica detalhada: quando começaram os tiques, quais tipos, evolução, fatores de melhora e piora
Observação direta da criança durante a consulta (embora os tiques possam não aparecer no consultório)
Entrevista com pais e, quando possível, com a escola
Avaliação de comorbidades (TDAH, TOC, ansiedade)
Exame neurológico completo
Vídeos caseiros dos episódios são extremamente úteis
Exames complementares são solicitados apenas quando há suspeita de outras condições neurológicas.
Quando procurar tratamento?
Nem toda criança com tiques precisa de tratamento medicamentoso. O tratamento é indicado quando:
Os tiques causam dor física ou lesões (como dor no pescoço por repetição)
Interferem significativamente na vida escolar (dificuldade de concentração, constrangimento)
Prejudicam a socialização e a autoestima
São acompanhados de ansiedade, depressão ou isolamento social
Persistem por mais de um ano com intensidade crescente
Há piora progressiva que impacta a qualidade de vida
Muitas crianças com tiques leves não precisam de medicação. O simples fato de entender o que são os tiques, receber orientação e ter o apoio da família e da escola já é suficiente.
Tratamento: abordagens e opções
O tratamento da Síndrome de Tourette é multimodal e deve ser individualizado.
Orientação e psicoeducação É o primeiro e mais importante passo. Explicar para a criança, a família e a escola que os tiques são involuntários e não são culpa de ninguém. Reduzir a pressão sobre a criança para “parar” com os tiques. Evitar chamar atenção para os tiques, pois isso tende a piorá-los.
Terapia Comportamental A Terapia de Reversão de Hábitos (HRT) e a Exposição com Prevenção de Resposta (ERP) são as abordagens psicológicas mais eficazes. A criança aprende a reconhecer o “urge” que precede o tique e a executar um movimento competitivo (incompatível com o tique) no lugar. É a primeira linha de tratamento para tiques moderados.
Tratamento medicamentoso Reservado para casos moderados a graves que não respondem à terapia comportamental. Existem diversas classes de medicamentos que podem reduzir os tiques em 50% a 80%. O neuropediatra avalia cuidadosamente os riscos e benefícios antes de prescrever.
Manejo do ambiente Reduzir o estresse, garantir sono adequado, evitar cafeína e estimulantes, e criar um ambiente acolhedor onde a criança não se sinta julgada pelos tiques.
Conclusão
Os tiques na infância são um fenômeno comum, e na maioria dos casos são transitórios e benignos. A Síndrome de Tourette, embora mais desafiadora, tem prognóstico favorável na maioria das crianças, com melhora significativa após a adolescência.
O tratamento vai muito além de medicamentos. Envolve acolhimento, compreensão, adaptações escolares e, quando necessário, terapia comportamental. O mais importante é que a criança não se sinta culpada ou envergonhada pelos tiques. Com o suporte adequado, ela pode levar uma vida plena, feliz e bem-sucedida.
Se seu filho apresenta tiques que preocupam, não hesite em buscar avaliação especializada. A neuropediatria em Maringá está preparada para oferecer o diagnóstico preciso, o acolhimento e o plano terapêutico mais adequado para cada criança.
Este artigo foi escrito pela Dra. Aline Costa Lourenço, neuropediatra em Maringá (PR).






